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14 de Junho de 2021

O Direito de Família no Cinema Contemporâneo - Uma análise do Filme "Marriage Story" - História de um Casamento.

Uma análise jurídica e psicanalítica sobre o direito de família exercido no filme "Marriage Story" - História de um Casamento.

Caio Gmeiner, Bacharel em Direito
Publicado por Caio Gmeiner
ano passado

O direito de família é uma grande vertente do Direito Civil Brasileiro, vindo a constituir nos interesses do tocante familiar em suas mais diversas variações. Muito se fala sobre a figura do advogado perante as conturbadas relações no âmbito da família. Estamos acostumados a lidar com a parte sucessória de maneira mecânica, institucionalizada e sempre visando o interesse particular.

Parecemos esquecer que o direito de família deveria resguardar por muitas vezes o já tão defasado restante de dignidade e zelo humano para com a instituição familiar. O mundo jurídico muito diz não ser para os fracos, para aqueles que dormem, para os que não se atiram de peito aberto... como se a fragilidade em si não indicasse uma força descomunal. É necessário ser muito forte para se reconhecer frágil e vulnerável... Colocando de lado toda a encantadora técnica de coach tão difusa hoje em todos os lugares, focaremos nas ações de divórcio e como é retratada atualmente no cinema, de qual maneira pode contribuir para conosco, operadores do direito familiar renovar em nosso atendimento e visão de estratégias.

Em pequeno retrospecto, sabemos que o direito de família e sucessões anda de mãos dadas com a relação humana e com o cuidado psicológico de todos os envolvidos. Ações oriundas da seara familiar possuem o dom de sempre advir de brigas e não de acordos. O acordo é o que deveríamos buscar tal como advogados, mas não necessariamente é o que acontece. Sabemos dos interesses particulares, mas em alguns casos ele deveria ser o último item perante os nossos pedidos redigidos em sede inicial de interposição de recurso.

Usaremos do frisson causado pelas excelentes atuações e das grandes mensagens trazidas no filme independente do serviço de streaming Netflix, “Marriage Story” – Histórias de um Casamento - , indicado a 6 prêmios Oscar em 2020, e como esse pequeno filme suscitou nos atuantes advogados de família uma nova maneira de se trabalhar perante os adventos das demandas.

Marriage Story nos conta de maneira muito íntima (já no intuito de nos colocar como sujeitos passivos da situação enfrentada na tela) a vivência familiar dos personagens de Scarlett Johansson – dando vida à mãe do casuístico, e de Adam Driver – em sua melhor atuação nas telas, no papel do Pai, e o tocante ao acordo em que chegaram: um divórcio consensual.

As nomeações acima, mãe e pai, são feitas de maneira proposital, tendo em vista que o “objeto” da ação travada é o filho, que agora é um filho de divórcio. Mas nada é tão simples como aparenta. Em uma ação de divórcio, o bem maior que deveria ser a separação consensual das partes visando o bom convívio com o (a) filho (a) dá lugar ao ego ferido dos adultos, que entravam uma verdadeira luta de ringue não pelo bem maior, mas pela sede de vingança e sucesso na empreitada jurídica.

O assunto poderia – muitas vezes deveria – ser levado para o divã de um psicanalista sem nenhum problema, tendo em vista que Freud já previu o narcisismo e egocentrismo há muito tempo. Isso nos lembra o quão tênue é a linha entre o que chamamos de direito familiar e a psicologia das pessoas, mas também da massa. Sem nenhum juízo de valor, a maioria das relações de casamento visam a construção e obtenção de um bem maior, não podendo-se negar as pulsões analíticas do ser humano como necessitado perante a corrente utilizada por Freud. Muito se faz para o outro, causando detrimento mesmo sem querer.

O casal retratado no filme apresenta uma excelente dinâmica de relação apesar da lide apresentada na tela: se amam, se respeitam (ainda), fizeram o acordo verbal de procurar fazer o melhor em nome do bem do filho, mesmo que isso signifique viver debaixo do mesmo tempo sem ser um casal, mas agindo como um. O filme mostra o latente rastro deixado pelo amor de ambos. Diretor de uma companhia de teatro amador, o personagem de Adam Driver é visto com grande respeito e amor por todos, inclusive por sua (quase ex) esposa. Ela é vista como uma pessoa de grande coração. Em primeira cena temos uma sessão de terapia em que ambos devem dizer em voz alta o que amam no outro (what i love about Nicole – what i love about Charlie) – “o que amo em Nicole” e “o que amo em Charlie” respectivamente. Conseguimos ver como nutrem um mútuo respeito e como o bem maior de todo aquele amor se reflete na figura de seu filho.

Vários fatores serão responsáveis pela quebra da tão fina linha entre o patamar que queriam adotar, agora de frente para com a realidade nua e crua que nos deparamos nos escritórios de litígios matrimoniais com os quais lidamos na seara: o abandono do bem maior ensejando em uma imensa briga de egos.

O tocante no filme se dá especialmente pela atuação de Laura Dern, em uma entrega expressiva e de tirar o folego no papel da advogada de litígios familiares Nora, mostrando toda a genialidade atrás do profissional.

Nora possui notório saber jurídico sendo muito reconhecida no condado (foro) ao qual representa seus clientes. Na cena em que somos apresentados à personagem, a sensação é realmente de um grande abraço e descanso. Em um escritório banhado pela luz do dia, vemos uma advogada que se preocupa com seu cliente muito além do formalismo jurídico. Nora deixa a personagem de Scarlett confortável, vindo a lhe oferecer chá, biscoitos e um ombro amigo. O latente em relação a proximidade do direito de família para com a psicanálise mora nas entrelinhas dessa cena: colocadas no sofá, conversam quase que informalmente perante o assunto. Permite que sua cliente chore, desabafe, de maneira nenhuma a julgando, pelo contrário, amparando e fazendo-a se sentir segura.

Óbvio que além do interesse em fazer parte da lide, mesmo que sem dolo, Nora faz com que sua cliente se sinta segura e não seja apenas uma cliente. Temos ciência de que se trata de uma obra cinematográfica com grande carga de dramaticidade envolta para o telespectador, mas os maneirismos dos personagens nos papéis de advogados nos fornece o necessário para vermos o que podemos melhorar e o quanto pode ser usado em nossa prática diária.

Na contramão do personagem de Nora encontra-se os advogados do personagem de Adam Driver. A fotografia do filme faz toda a diferença neste momento. O escritório banhado de luz e receptividade de Nora é substituído por dois escritórios escuros, fechados, envolto em uma luz quase tão fúnebre quanto o próprio casamento morto. O pai não tem outra escolha senão aceitar as condições impostas pelos advogados que consulta, tendo em vista as concessões apresentadas na lide.

O trunfo do filme mora no decorrer. Passam de pessoas esclarecidas para dois adultos lutando com afinco para provar sua verdade. Os advogados fazem a festa neste momento, utilizando-se de toda e qualquer fraqueza presente na parte contrária ao tocante da capacidade de se criar o filho.

O filme é um retrato do que realmente ocorre na seara: adultos com sentimentos mal resolvidos vindo a ferir os que deveriam ser protegidos de tudo isso: seus filhos. O filme tem desdobramentos que levam a um final satisfatório, não totalmente feliz, porém realista.

Várias cenas dão o tom de como a relação entre cliente-advogado é de suma importância, podendo vir a garantir a vitória. Mas também nos alerta de como ainda é frágil o trato no tocante a família no direito.

Talvez, se conseguirmos extrair grandes lições do filme, podemos incorporar em nosso ritual diário uma ou outra coisa, vindo assim a melhorar a relação como um todo, tornando-a menos desgastante, menos mecânica, menos burocrática. A relação familiar no direito é fadada sim aos sentimentos, as emoções dos momentos, por isso apresenta grande concomitância para com a psicologia e análise do eu, tanto quanto com o cinema e a literatura. No fim interessa o sentir, não o porquê do sentir. E filme a filme vamos nos tornando profissionais melhores, para que um dia seja mais célere e menos desgastante a atuação do profissional do direito na seara da lide apresentada, torcendo para o bem das partes, não somente de uma, mas de todas as envolvidas.

4 Comentários

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O casal havia acordado inicialmente com a consensualidade, porém após as consultas aos advogados, o advento do litigio tomou conta da situação, complicando o encaminhamento do divórcio.
Como não definir que a inserção de advogados causaram a desavença, ou afloraram a desavença oculta.?
Os operadores do Direto neste caso ajudou ou atrapalhou? continuar lendo

Olá Luiz, tudo bem?
Concordo com você neste ponto em que, a partir do momento em que os advogados entraram em cena, tudo se intensificou.
Mas podemos ver isso pelo olhar da psicologia aplicada no direito de família: tudo aquil oque ocorreu, já estava ali. Enraizado, recalcado neles, mas ainda estava.
Isso fica aparente de forma gigante na cena em que eles brigam na casa dele e ambos dizem diversas ofensas um ao outro.
Os operadores do direito sempre auxiliam, mas isso vai depender MUITO de como a situação familiar já se encontra no momento em que se pega a lide.

Os operadores do Direito acabaram como catalisadores naquele momento, mas tudo o que veio a tona, já estava ali. continuar lendo

Caio, vou citar esse texto em uma publicação minha. Você é acadêmico de Direito ou já exerce profissão na área? Como devo citá-lo? Obrigada. continuar lendo

Ola Lídia, ví que já citou e fez tudo de maneira correta.
Sem problemas.
E obrigado. continuar lendo